O presidente do Atlético-GO, Adson Batista, e o vice-presidente do Vila Nova, Hugo Jorge Bravo, apresentaram posições diferentes na sexta-feira (18) sobre a possível proibição das casas de apostas pelo governo federal. As declarações foram dadas depois dos jogos das duas equipes, um dia após os clubes compartilharem o manifesto nacional “O fim do futebol brasileiro”.
Vila Nova: “medida eleitoreira” e crítica ao Bolsa Família
Após a vitória por 1 a 0 sobre o América-MG, no OBA, Hugo Jorge Bravo classificou a discussão sobre restrições às bets como “medida eleitoreira” e criticou a intenção do presidente Lula de avançar contra as casas de apostas. Para o dirigente, o país tem problemas por vários outros fatores e não deveria colocá-los na conta das bets.
Ao questionar essa prioridade, Bravo criticou o Bolsa Família. “O problema chama-se Bolsa Família, que escravizou o preguiçoso”, afirmou. O dirigente relacionou a declaração à dificuldade que o Vila Nova enfrenta para contratar funcionários.
Bravo comparou os efeitos das apostas aos do álcool e do cigarro e criticou o que considera tratamento desigual para atividades que também causam problemas sociais. Também disse que a medida surge em véspera de eleição e criticou a polarização entre direita e esquerda.
No campo financeiro, afirmou que o patrocínio de bets representa cerca de 20% da arrecadação anual do clube, que já tem contratos e compromissos para a próxima temporada estruturados com base nessas receitas. Estimou ainda que os cerca de R$ 12 milhões líquidos que o Vila recebe hoje em receitas ligadas à Série B poderiam cair para R$ 6 milhões, além de perdas em transmissão, placas publicitárias e outros contratos do setor.
Segundo Bravo, estrangular o mercado regulamentado abriria espaço para plataformas ilegais e deixaria clubes de menor porte, como o Vila Nova, em situação financeira vulnerável. Ele reconheceu que as apostas provocam danos sociais e defendeu a tributação do setor e o uso desses recursos para reparar parte do problema.
Atlético-GO: fim das bets, com contratos respeitados
Adson Batista defendeu o fim das bets no país, embora o clube tenha compartilhado o manifesto. Para o presidente rubro-negro, os contratos em vigor precisam ser respeitados e, quando terminarem, as casas de apostas devem deixar o Brasil.
Adson avaliou que a saída das bets exigirá uma readequação financeira e criticou os gastos que considera exorbitantes no futebol brasileiro. Disse ainda que o dinheiro das apostas beneficia sobretudo os clubes de maior poder econômico e relacionou o mercado de apostas a casos recentes de manipulação envolvendo jogadores.
O presidente também afirmou que, se o patrocínio for proibido, as plataformas não devem continuar usando comercialmente os nomes e as marcas dos clubes.
O contexto nacional
O manifesto, divulgado na quinta-feira (17) por clubes como Flamengo, Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Santos, Botafogo, Vasco, Fluminense, Cruzeiro e Grêmio, além das federações paulista, carioca e baiana, alerta para risco de insolvência e perdas de até R$ 1 bilhão em patrocínios. O texto reconhece os impactos sociais das apostas e defende fiscalização, educação e prevenção, com a manutenção do mercado regulamentado.
Na noite de sexta-feira (18), em comício em Guarulhos (SP), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, disse que, se depender de sua vontade pessoal, vai acabar com as bets no Brasil. Comparou o vício em apostas ao vício em crack e citou casos de endividamento, entre eles o de uma mãe que perdeu o filho por suicídio ligado a dívidas de jogo.
Lula chamou de “balela” a tese de que o fim das bets acabaria com o futebol, lembrando que clubes brasileiros e a Seleção conquistaram títulos mundiais antes das apostas online. Afirmou que não é dono de bet e que vai conversar com os clubes. Disse também que o governo não se preocupa em perder arrecadação: “O que eu não posso perder é a vida dos pobres jogando”.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou na quinta-feira que ainda não há decisão fechada. Segundo o Brasil de Fato, que ouviu fontes, Lula pretende assinar na quarta-feira (23) uma medida provisória que deve proibir jogos e cassinos online, como o chamado “jogo do Tigrinho”, sem proibir as apostas esportivas, que teriam restrições de publicidade. A redação da medida ainda está em discussão.
Pesquisas recentes mostram a opinião pública: 56% dos brasileiros defendem a proibição das bets, segundo o estúdio CLARICE, e 68% defendem a proibição do patrocínio de bets a clubes, contra 19% que preferem mantê-lo, segundo o Ipsos-Ipec.
Quem precisar de apoio emocional pode ligar para o CVV, pelo número 188, gratuito e disponível 24 horas.
